Eu desejo que você não perdoe nada nem ninguém. Especialmente se o ato de perdoar for para você uma forma discreta de ignorar a dor, e fingir que sua mente é capaz de esquecer.
O perdão, a virtude máxima que enobrece e transcende o que é meramente humano. A capacidade de perdoar é posicionada como a centelha sobrenatural do ser humano. Não obstante, são incontáveis as ferramentas terapêuticas que se utilizam do conceito do perdão, tanto quanto ele está presente nos mais diversos contextos religiosos. Quanto maior a falta que o ser humano perdoa, mais nobre ele é.
Já lhe ocorreu que a resistência por perdoar alguém existe porque ainda dói? Sim, há machucados que doem muito, latejam. Cobrar alguém, dizendo que essa pessoa “tem que” perdoar, porque esse é o divino, esse é o bom e o belo, é tão cruel quanto o ato pelo qual alguém deveria ser perdoado. Não dá para fechar os olhos para a dor, fingir que a ferida não existe, e que é mais importante buscar por essa transcendência culturalmente bem posicionada. Ignorar a dor é o jeito mais covarde de mantê-la.
É preciso, portanto, reconhecer a dor, respeitá-la e, principalmente, cuidar do que a mantém, é preciso respeitar para curar. A pessoa ferida não deveria “ter que” perdoar, ela deveria ser cuidada. Deveria se cuidar, aprender a se proteger, e construir o amor a si mesma. Até o ponto em que a sensação da dor daquela ferida, não tenha mais utilidade relacional.
Para o adulto que não quer se relacionar com outro adulto, mas que tem dificuldades de dizer não, é mais fácil – ou menos difícil – “estar machucado” e usar isso para justificar tal negativa. Para o adulto que, em um dado momento do passado, foi silenciado em um momento de dor, porque não tinha autorização para expressar-se, é menos difícil “estar machucado” e poder utilizar isso para expressar a dor no momento atual, do que perpetuar o silêncio. Para o adulto que sente-se carente de cuidado a vida toda, é menos difícil “estar machucado” para receber cuidado, do que sustentar a carência. E nessa linha vemos a dor como um sentimento real, e útil para dar vazão a uma situação de maior complexidade.
Perdoar e assumir o compromisso de extinguir tal dor, significa abrir mão de todas as justificativas reais para não encarar questões mais complexas. Invariavelmente abrir mão da dor, nos faz encarar situações que nos exige decisão, resolução, caminho e compromisso. E nem sempre estamos preparados para isso. Por isso, “perdoar” simplesmente porque essa é uma atitude nobre, desejável, é uma forma mascarada de crueldade auto direcionada.
“Nesse sentido não devemos perdoar, portanto?”. É uma pergunta justa, e sensata nessa reflexão, mas não se trata de dever ou não, mas da utilidade da dor. Nesse sentido, a nobreza está na coragem de encarar as questões, e todas as suas complexidades, ao ponto que não há porquê sustentar uma dor. A dor precisa tornar-se inútil. Sim, a dor de uma ofensa, de uma traição, de um gesto de maldade, de uma falta de respeito, ou seja, as dores de qualquer uma dessas realidades precisa ser inútil. E isso só é possível se houver disposição e atitude de encarar as questões que poderiam dar utilidade para a dor.
Por isso, o perdão não é um ato de nobreza, de fato. Ou pelo menos não é só isso. E certamente não se trata de uma obrigação. Aliás, não há sentido nenhum em tornar o perdão uma obrigação. Perdoar, nessa perspectiva, significa encarar questões que justificariam escolher manter a dor. E nada disso reduz ou destitui o gesto que gerou a dor. Se alguém feriu uma pessoa, o ato em si aconteceu, e potencialmente trata-se de uma atitude ruim, despreparada ou mal intencionada.
Dessa forma, o perdão não é sobre o outro, mas sobre a pessoa que cede o perdão. É sobre sua maturidade emocional, ou a jornada que essa pessoa trilhou para curar as próprias feridas e estar nesse lugar de liberdade. Por fim, podemos dizer que o perdão genuíno acontece quando não há mais utilidade relacional em usar a dor ou o fato acontecido. Não é que se esquece, mas perde o sentido, e portanto, perde o sentir.
Deixe um comentário