Expectativas

Imagine um animal cujo veneno é lento e mortal, ele desliza silenciosamente e de maneira sorrateira pica sua vítima. A picada e o veneno é imperceptível, mas imediatamente começa a alterar a fisiologia dessa vítima. O corpo começa a colapsar, o ar começa a faltar, e aos poucos essa pessoa começa a ficar sem energia, uma sensação amarga se instala decisivamente na boca, os olhos começam a alucinar e ver situações que não existem, os ouvidos ficam com um zumbido que impede a escuta clara, e aos poucos essa pessoa se sente cada vez mais limitada e presa… 

De maneira metafórica, evidentemente, mas o nome desse veneno é “expectativa”. O animal que injeta essa expectativa pode se chamar “ferida emocional”. Desejar é um impulso natural do ser humano, tão natural quanto bem vindo. O desejo é o impulso que cria a oportunidade da vida ser melhor. Enquanto para Shopenhauer (filósofo alemão do século XIX) o desejo é a origem do sofrimento, eu proponho aqui a perspectiva de que o desejo seja a possibilidade de uma vida melhor. 

É pelo desejo que decidimos mudar, é pelo desejo que nos aproximamos de alguém, é pelo desejo que enfrentamos situações contrárias com empenho e determinação, o desejo é bom. O problema começa quando deixamos o veneno contaminar o desejo, porque aí o desejo deixa de ser uma projeção para o futuro, e passa a ser uma correção do passado. 

Alguém que acumulou memórias de não importância, ou seja,  aquele adulto que quando criança sentiu-se ignorado com muita frequência, inclusive, pelas pessoas mais importantes da vida dele naquele momento, deu vida à uma ferida emocional; a ferida do desprezo, da indiferença, da desimportância. E isso machuca de uma maneira profunda, a criança, sem saber o que fazer com essa dor invisível e intensa, busca uma forma de resolver a dor, e muitas vezes, manifesta essa busca nas relações, busca no outro. 

Nesse cenário um pedido de “Vamos jogar bola?”, não é mais apenas um convite, mas é um desejo de vivenciar um outro nível de importância junto daquele adulto. Quando essa criança se torna um adulto, a sua opinião sobre algo, não é só uma opinião, é a manifestação da espera de que o outro encontre importância nela, através da valorização da opinião que ela emitiu. Isso é expectativa. Esse adulto contamina de expectativa pequenos gestos, e faz com que tais gestos ganhem uma dimensão ampla dentro de si. 

Expectativa, portanto, é esperar que algo aconteça de maneira a atender certas necessidades, sem nenhum respaldo, sem nenhum acordo, é apenas a espera. Ter expectativa é projetar um significado para a atitude de alguém, sem ao menos, combinar algo com esse alguém. É uma livre – e irresponsável –  atribuição de significados à atitudes, às falas e as escolhas, normalmente, dos outros. O adulto com expectativas determina dentro de si qual é o significado da fala da outra pessoa, se apega a isso e reage em igual proporção ao significado que ele mesmo criou. 

Essa expectativa é, de fato, como um veneno, pois ela faz parar. Ela se torna base para a decisão de não seguir adiante, de não realizar, ou de realizar por motivos insustentáveis, ela perverte o desejo. O desejo, enquanto projeção de um futuro que se busca, e que inspira, move, convida, fica agora pervertido. Torna-se uma oportunidade silenciosa para corrigir uma dor antiga cuja existência não é consciente, mas se faz sentir. Logo, o futuro desenhado pelo desejo, não é aquele que traz uma satisfação prazerosa, mas aquele que tenta se encaixar em um emaranhado de significados e necessidades. 

Onde há abundância de expectativas, não há espaço para sonhar. O sonho é um risco perigoso para a expectativa, pois para sonhar é preciso olhar para o futuro com leveza de criança, responsabilidade de adulto e liberdade de alguém capaz de deixar o passado onde ele precisa ficar, no passado. O acúmulo de expectativas desconstrói essa possibilidade. 

Precisamos assumir que é, de fato, quase inevitável termos expectativa sobre as coisas, as pessoas, e os acontecimentos. Contudo, não se trata de estancarmos algo que surgem em nossa mente, como se apaga o fogo em uma mata seca. Se trata da lucidez e da maturidade com que a reconhecemos, e com um ato de autoliderança, decidimos a direção, o alcance e destino dessa expectativa. O poder que a expectativa exerce nas decisões que serão tomada, depende da clareza, da consciência e do controle com que lidamos com ela. 

Por isso, ter consciência de como você funciona e de como a sua história construiu sua forma de funcionar, te traz a oportunidade de sarar feridas emocionais, e construir relações saudáveis. A cura das feridas emocionais funcionará como vacina para o veneno da expectativa, de forma que, ainda que ele seja injetado, não provocará a sua reação. Isto quer dizer que diante de uma maturidade emocional, que vem através da cura de tais feridas, não estamos subjugados às expectativas, e ainda que elas surjam de uma forma ou outra, daremos conta de impedir que ela contamine o desejo, as relações e, principalmente, as decisões. 

Dessa forma, não é uma expectativa minha, mas um genuíno desejo de que você encontre, e esteja trilhando esse caminho de cura de suas feridas emocionais, para que esteja em uma posição de comando, onde suas expectativas vem e vão, sem contaminar aquilo que você tem de mais precioso, a sua liberdade de decidir.

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