Uma habilidade que desenvolvemos na vida adulta é a discreta habilidade de não observarmos a repetição de pequenos gestos. Já não nos surpreendemos com nossa habilidade de amarrarmos o cadarço do sapato, já não nos orgulhamos da autonomia de lavar os cabelos sozinhos no banho, e não há beleza alguma na forma sempre igual com que nos alimentamos durante um almoço. Ainda que nos encanta vermos uma criança pequena fazendo tais coisas, sequer observamos o como fazemos isso tudo, enquanto adultos.
Se olharmos com um pouquinho mais de atenção, perceberemos que essas habilidades as quais não prestamos atenção mais na vida adulta, foram todas aprendidas. Dificilmente encontraremos habilidades desenvolvidas enquanto resposta ao instinto de sobrevivência, ou algo do tipo.
Isso porque o aprendizado ocorre sempre que, de alguma forma, respondemos a estímulos, sejam eles positivos, negativos, situacionais ou intencionais, mas sempre há um contexto, um estímulo e uma resposta, e a partir do “resultado” dessa resposta, um aprendizado. A partir disso inicia-se um ciclo, que deve se repetir toda vez que um estímulo semelhante acontece. É assim que acontece, ao menos no âmbito comportamental.
A partir deste ponto não será difícil compreender a confusão de quando observamos o próprio comportamento. Sempre há um pensamento que propõe o questionamento: “O que, de fato, é meu? O que é da minha personalidade, ou dos meus traços, e o que é reflexo de um trauma, um padrão de dependência emocional?” É como carregar uma mala pesada por muitos quilômetros sem ter a certeza de que tudo o que tem dentro da mala é seu, ou se veio de alguém, se é seu ou se alguém forçadamente colocou ali. Afinal, essa metáfora se parece muito com o trauma.
Se observarmos o trauma tem um pouco disso, além de ser uma dor que transpassa o tempo, ele reflete, normalmente, a inabilidade, despreparo ou mal intenção de alguém que deveria ser responsável. Se ampliarmos o recorte da linha do tempo, veremos que é disso que se trata o trauma. E o problema do adulto traumatizado, não é o que aconteceu, pois infelizmente não há o que fazer quanto a isso, mas o quanto o que aconteceu interfere no que está acontecendo hoje.
Dessa maneira conseguimos alcançar uma compreensão muito mais ampla para responder ao questionamento do consciente; “O que é meu, e o que é padrão?”. Eventualmente você pode ter vivido uma experiência no passado que, pela dor ou desconforto, gerou uma necessidade existencial ou emocional. E como resposta a esse estímulo, você passou a ter determinado tipo de comportamento, e aprendeu que isso aliviava o desconforto – ou a dor – da experiência. E então iniciou-se o ciclo.
Uma resposta a uma experiência ruim, portanto, pode desenvolver um comportamento de dependência emocional. Um adulto que se preocupa demais com a opinião dos outros, provavelmente é um adulto hoje, que quando criança, ouviu muito “O que as pessoas vão pensar de você?!”, “olha está todo mundo usando roupa azul, só você estará de amarelo”… Essa criança que passa por essa experiência constante de comparação e depreciação, respondeu a esse estímulo se preocupando e pensando muito sobre o que os outros supostamente devem pensar sobre ela. Essa preocupação, em certa medida, alivia a tensão e o desconforto de supor o pensamentos das pessoas. Assim, esse aprendizado se torna um padrão comportamental de dependência emocional, pois o suposto pensamento das pessoas interfere na decisão desse, agora, adulto. Assim, ele decide fazer ou deixar de fazer algo a partir do que alguém pode ou não pensar dele.
Quando, porém, falamos da formação dos traços de caracteres, observamos uma criança que está passando por uma fase em que suas percepções do mundo criam dores profundas. A criança no primeiro ano de vida, pode ter uma experiência cuja percepção é de que ela está sendo abandonada, ainda que o fato concreto e objetivo não seja esse. Nesse caso, pela dor de sua percepção, ela desenvolverá como resposta o comportamento de se conectar, de ser convidativa e até acolhedora. Logo a experiência que a criança estava vivendo foi interpretada como algo ruim, que gerou uma dor profunda, e como resposta desenvolveu habilidades capazes de mudar sua percepção. Tais habilidades foram mais do que aprendidas, ficaram registradas de maneira privilegiada na memória, dado o momento em que esse mecanismo aconteceu.
Além do que, a participação das pessoas que estão nesse mesmo ambiente possui uma característica secundária, porque a dor que a criança está vivendo não se trata de um fato concreto necessariamente. É muito mais sobre a percepção do que sobre o fato. Diferente de quando um adulto chega a uma criança e ativamente faz um comentário comparativo e depreciativo. Logo, para entender o que de fato é seu e o que é um reflexo de uma experiência ruim, ou traumática, é preciso observar a intenção do comportamento, a característica e a suposta origem.
O comportamento corresponde a uma habilidade aprendida e desenvolvida que leva à liberdade, ou corresponde a uma resposta aprendida que limita? Porque aquilo que é natural do ser humano, isto é, aquilo que faz parte do processo natural de desenvolvimento, leva à liberdade, à realização e ao potente poder de escolha que temos, se, contudo, o aprendizado trata-se de algo que limita, interfere na decisão e gera conflito. Não se trata de uma característica, mas de uma dor que transpassou o tempo, e se faz presente no presente.
Diante de um trauma, o acontecimento não precisa se repetir para a dor se repetir, basta que algo semelhante, ou algum elemento esteja presente para que funcione de gatilho para essa dor, e traga, portanto, sua limitação aquela pessoa.
Por fim, é inevitável que o caminho do autoconhecimento surja nesse momento como chave de liberdade. A consciência pode e deve limpar o caminho, tirar os obstáculos e tornar possível uma vida potente, livre e autêntica.
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