O peso é o sintoma de uma condição infantil, na idade adulta. Toda vez que deslocamos algo no tempo, geramos uma demanda que é uma espécie de juros. Vamos pensar sobre o dinheiro, apenas como um exemplo, se eu faço um empréstimo, eu trouxe para o agora, algo que eu teria no futuro caso guardasse dinheiro. O preço disso é o juros. Se eu aplico o dinheiro em algum investimento, deixo de usufruir dele no agora, para ter mais no futuro, o que eu recebo por isso, é o juros. E nessa lógica podemos olhar para várias áreas da vida, entendendo que deslocar o tempo gera uma demanda, e que há um preço.
Para avançarmos na nossa reflexão, eu preciso pedir licença aqueles cujo pensamento é mais moderno e relativista. Ou até mesmo feminista. Porque aos olhos desses, talvez eu pareça machista, tradicionalista ou qualquer outro “ista” em tom pejorativo. O fato é que eu preciso afirmar algo aqui sobre peso e leveza. Essas duas categorias são diferentes para o homem e para a mulher. Aliás, eu poderia afirmar que para a mulher, essa discussão sobre a leveza importa, pois a mulher não deveria carregar peso, de qualquer natureza.
Se observarmos a psicobiologia, e a própria fisiologia, ficará evidente; ainda que a mulher seja capaz, e que tenha naturalmente uma resistência maior à dor, ela não deveria carregar peso. Pois uma vida pesada, atividades pesadas, situações pesadas afetam de maneira mais destrutiva a saúde emocional, mental e física da mulher, do que do homem. É pesado criar os filhos sem ter suporte, é pesado olhar para os custos da vida e perceber que não tem apoio, é pesado carregar as dores e dificuldades de outro adulto, é pesado olhar no espelho e não gostar do que vê, é pesado lidar com incertezas o tempo todo, é pesado ter que resolver todos os problemas que surgem em uma família, é pesado abrir mão das próprias vontade, abrir mão da própria vida em função do outro.
Quando essas, e outras, realidades pesam para a mulher, e trazem dissabores para a vida, normalmente nos voltamos para a relação. O olhar de um terapeuta que vê apenas a superfície, por exemplo, dirá: “Só está pesado porque você não tem alinhamento na sua relação”. Contudo essa superfície possui camadas de profundidade indispensáveis para a busca pela leveza. Isso porque a leveza não é sobre a atividade em si, se não, a própria e desejada leveza seria uma prisão. Um lugar que te priva de fazer uma coisa ou outra, um lugar em que há uma lista de permissões, e se você só poderá ser leve se obedecer religiosamente cada proposição.
Não, leveza não tem nada a ver com protocolos permissionais a serem seguidos. Muitas pessoas se iludem, se impondo uma rotina que sequer combina com elas, mas se forçam a tal, porque querem ser leves. Se a leveza for sobre o que você pode ou não fazer, ela pouco teria relação com a liberdade e é exatamente o oposto.
Ser leve é ser livre. Criar filhos sozinha não é pesado por ser pesado, mas porque isso obriga essa mãe a abrir a se anular quase que por completo, em função das necessidades dos filhos. Trabalhar e gerar renda para pagar as contas não é pesado, pesado é ser obrigada a isso como se não houvesse nenhuma alternativa. Pesado não é olhar para o espelho e ver algo que não gosta, pesado é a sensação de que você é obrigada a conviver com um corpo que não gosta, simplesmente porque não existe outra alternativa.
A leveza está na escolha, e na liberdade de reconhecer que há uma escolha. Ter o corpo que você tem é uma escolha, consciente ou não, de longo prazo ou não. Hábitos, comportamentos e decisões foram se acumulando, gerando eventos, provocando acontecimntos e reações que hoje podem se apresentar na maneira como seu corpo está, mas acredite, ele não está por um capricho randômico do universo. E dessa forma podemos olhar para todas as outras áreas da vida, cada resultado, cada detalhe, nós escolhemos. Eventualmente hoje você lida com o resultado de uma escolha que foi feita décadas atrás, mas foi uma escolha.
Tornar-se consciente da liberdade e das escolhas, bem como assumir as rédeas e fazer escolhas conscientes, é fundamental para encontrar a leveza. Nem que para isso seja necessário um profundo e estruturado mergulho no universo que você é. Se conhecer profundamente exige tempo, compromisso, decisão… mas é o único caminho para que você assuma completamente a responsabilidade das escolhas.
Eventualmente os caminhos que você escolheu exigirão algum preço. Se você escolheu se melhorar enquanto pessoa, melhorar sua carreira, e sua capacidade de lidar com pessoas antes de ter um relacionamento novo, talvez você tenha que lidar com a imensa demanda de criar filhos sozinha, até que esteja pronta para o relacionamento que escolheu. E se você está com plena consciência de que escolheu, não é pesado, apesar de ser difícil.
Há uma diferença importante entre dificil, sofrido ou pesado. Há escolhas que trarão certos sofrimentos, há escolhas que vão te propor desafios, dificuldades e vão exigir que você se desenvolva. Contudo, desde que exista a consciência da escolha, não há peso, pois há liberdade sendo exercida. Experimente mergulhar profundamente na liberdade, ainda que você encontre dificuldades, você encontrará também leveza.
Contudo, esse caminho exige responsabilidade. Entender que você não é vítima do seu passado ou dos eventos, mas é autor(a). Responsável pelo que acontece e, principalmente, pela forma como responde ao que acontece. É difícil, sim, aprender a lidar com as próprias escolhas. Há uma dimensão hermética nas engrenagens por trás de todas as variáveis da escolha, bem como uma rede de acontecimentos e relações que se impactam inevitavelmente em todas as opções, mas é um caminho real e possível.
Por evidente que crianças, quanto mais jovens e mais dependentes de seus responsáveis, menos conseguiriam ter consciência ou exercer seu poder de escolha. Crianças precisam que os responsáveis se responsabilizem por boa parte de suas escolhas, até que amadureçam. Por isso, quando um adulto se isenta ilusoriamente da responsabilidade de suas escolhas, esse adulto torna-se inconsequente, e desfruta de uma vida, muitas vezes, pesada. Esperar que alguém apareça, ou algo aconteça, para que alguma coisa mude é a marca exata da imaturidade deste adulto. O peso se manifesta na inconsciência da liberdade das escolhas e de seus preços. Trazer essa infantilidade para uma vida adulta tem um preço, ou poderia dizer, um juros, e é caro.
Por isso, desejar que você descubra e desfrute de uma vida leve significa também desejar que você tenha cada vez mais consciência de quem você é, de como você funciona, de quais padrões relacionais você tem, de como sua história de vida impacta sua vida hoje. Não ampliar sua consciência, pode te dar a oportunidade de acreditar em sorte, azar, acaso e aleatoriedade… mas isso é imaturo, e te limita. Portanto, acima de desejar que você tenha uma vida leve, desejo que você seja consciente e livre!
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